Por Sanatiel Rodrigues Pinto – Blog Dia Dia Aqui
Você conhece o Bumba Meu Boi do Maranhão? Se ainda não teve esse prazer, se prepare, porque vou te contar do meu jeitinho como essa tradição faz parte da nossa alma maranhense. Uma história cheia de fé, cultura e poesia, que atravessa gerações e continua viva no coração do povo.
A origem: quando tudo começou com Catirina
Diz a lenda que tudo começou com Catirina, que tava grávida e queria comer a língua do boi. O marido dela, Pai Francisco, pra agradar a esposa, matou o boi do patrão. Aí já viu, né? Deu rolo! Teve pajé, teve cura, teve promessa… e no final o boi ressuscitou e virou festa. E dessa história nasceu uma das maiores manifestações culturais do Brasil: o Bumba Meu Boi.
Cada sotaque é uma emoção:
Aqui no Maranhão, o Bumba Meu Boi tem vários sotaques, e cada um é um espetáculo à parte. Falo sotaque, mas não é só na fala não — é no ritmo, nos instrumentos, nas danças, nas toadas...
Sotaque de Orquestra: mais presente em São Luís, com metais e som mais refinado.
Sotaque de Zabumba: muito forte na Baixada Maranhense, com batidas que marcam no peito. E dentro desse sotaque, tem o famoso sotaque de Guimarães, representado por cidades como Guimarães, Cururupu, Serrano, entre outras. É um ritmo mais cadenciado, com aquele som grave e bonito da zabumba. Esse é um dos que mais me toca, porque é o que cresci ouvindo.
Sotaque de Matraca: vem com força e agito, muito comum em São José de Ribamar e região.
Sotaque de Costa de Mão: esse já quase sumiu, hoje em dia só tem um grupo ativo em Cururupu, se não me falha a memória. É um dos mais antigos e tem um jeito muito próprio de tocar.
Eu sou da baixada, então meu coração bate mais forte mesmo pelos sotaques de zabumba e matraca, que sempre acompanhei desde pequeno. Mas todos têm sua beleza e seu valor.
Mais que dança: é poesia, é arte popular:
O Bumba Meu Boi não é só música e dança, é arte popular viva. Tem cantador que nunca pegou num livro, mas solta verso e rima de arrepiar. As toadas — que são as músicas do boi — falam de tudo: amor, fé, sofrimento, crítica, alegria…
As roupas dos brincantes e do boi são verdadeiras obras de arte. Feitas à mão, bordadas com paciência, brilho e muito orgulho. É o trabalho das mulheres bordadeiras, que costuram a beleza da tradição em cada ponto.
O miolo: a alma que move o boi:
Dentro do boi vai o miolo, que é quem dá vida ao personagem. É ele que faz o boi dançar, pular, girar, deitar... Tudo isso com muito talento e força. O boi, pra nós, não é só fantasia — é símbolo de luta, resistência e identidade.
Um sentimento que passa de geração em geração:
Desde pequeno acompanho essa festa. Já ajudei a carregar instrumento, já aprendi toada de cor, já perdi o fôlego dançando em roda. Hoje continuo com o mesmo amor e orgulho por essa cultura tão nossa.
Quem vê de fora pode até achar bonito, mas só quem vive sabe o quanto isso significa. É mais que uma festa: é a história de um povo contada com som, suor, verso e brilho.
Vale a pena conhecer de perto:
Se você é de fora, se programe pra vir no mês de junho, que é quando o Maranhão se enche de vida com as festas juninas. O Bumba Meu Boi do Maranhão é Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, e isso não é à toa.
É emoção pura, cultura viva, tradição que resiste. E mais: é feito por gente simples, com alma, com fé, com talento e com amor.

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